#1 - Explicando as metáforas de Clarice Lispector - Floresta, Leão, borboletas e mulher tricotando


Olá, queridos! Eu acho os textos de Clarice Lispector poéticos e enigmáticos ao mesmo tempo. São textos em que é possível ler e reler e, mesmo assim, encontrar e reencontrar múltiplos significados. Resumindo: ela parece ser uma fonte : inesgotável! Escolhi um  trecho do livro “Para não  esquecer” , criei uma imagem na IA e meditei nela para trazer aqui no blog. Espero que gostem:              TRECHO                                                                           

É quase um 
mapa interior. Clarice não está descrevendo um lugar “real”, mas um estado de consciência. As metáforas funcionam como camadas de uma experiência íntima — ver, sentir e existir ao mesmo tempo.

O que Clarice Lispector retrata com essas imagens?

 A floresta e a clareira

floresta simboliza o inconsciente, o vasto, o que é denso e indecifrável. Já a clareira verde, “meio escura”, é o espaço do instante de lucidez: um lugar de contato consigo mesma, mas sem excesso de luz.
Clarice não busca a claridade total — ela busca a penumbra, onde é possível ver sem se violentar.

“A clareira é o lugar onde o ser pode existir sem precisar se explicar.”

 A penumbra

Quando ela diz que “o bom dessa imagem é a penumbra”, há algo crucial:
Clarice rejeita o excesso de nitidez, de racionalização. A penumbra é o estado ideal porque não exige mais do que os olhos podem dar. É uma ética do sentir: ver só até onde é possível, sem forçar sentido.

As borboletas

As borboletas representam o movimento do tempo interior, a transformação contínua, a delicadeza do instante. Elas não são estáticas — como os pensamentos, elas passam, tremem, mudam.

São também imagens do efêmero: aquilo que não se prende, mas acontece.

 O leão amarelo

Esse é um símbolo fortíssimo.

leão costuma representar:

  • força vital

  • instinto

  • potência bruta

Mas aqui ele está sentado, amarelo, quase dócil. O amarelo é ambíguo: vida, luz, mas também estranhamento.
As manchas, como Clarice diz, não são defeito — servem apenas para mostrar o que ele não é.

 O leão é a energia interior domesticada, o instinto reconhecido e integrado, não reprimido nem violento.

 Ela, sentada, tricotando

Essa imagem é de uma beleza silenciosa.

Tricotar é:

  • esperar

  • repetir

  • construir sentido com o tempo

Enquanto o mundo interior pulsa (borboletas, leão, floresta), ela não controla, apenas tece. É a consciência em estado de presença.

Não é ação dramática. É permanência.

 O tempo: horas que viram anos

Aqui Clarice dissolve o tempo cronológico. O tempo interno não obedece relógio — ele se dilata, se condensa.
Esse é o tempo da experiência profunda, não da narrativa tradicional.

Em síntese

Clarice está falando de:

  • um refúgio interior

  • um estado de aceitação do mistério

  • a convivência pacífica entre instinto, pensamento e tempo

  • a vida sentida, não explicada

Enfim, ela cria uma imagem que não pede interpretação lógica, mas habitação. O leitor não “entende” — ele entra na clareira.

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