[Um texto meu] Carta de um professor


O texto abaixo é de minha autoria. Foi escrito num momento de muita angústia e insatisfação perante as mazelas do Ensino público e do descaso dos alunos. Trata-se de um professor angustiado, cansado e oprimido pelo sistema. Suas palavras de desabafo são lançadas por meio de uma carta libertadora: a recuperação da própria dignidade para seguir em frente. Espero que gostem!


Queridos alunos,

            Tudo bem com vocês, queridos alunos? Era assim que eu me dirigia a vocês, nos tempos áureos da minha profissão, quando meus olhos brilhavam e eu tinha orgulho de ser professor. Até esquecia de tirar o avental e saía assim pelas ruas: fantasiado de professor. Sim, eu batia no peito e dizia com orgulho: “Eu desejo a minha profissão!” Mas, e agora, Raimundo?, pergunto-me constantemente, com a mente confusa e um sentimento de inutilidade toda vez que coloco o meu avental e preciso implorar para dar aula. É patético!
            Esta é uma carta de despedida, de apelo, de grito, de exoneração, de um desejo que se foi, deu tchau e nunca mais voltou. E eu fiquei olhando-o pela janela, acenei e continuei minha jornada. Porém nunca mais fui o mesmo depois da ruptura entre  mim e o meu desejo de lecionar.
            O meu ânimo para ensinar caiu no chão e mil pedaços foram para os ares. Quem poderá juntar esses fragmentos? Excelente pergunta que não pode ser respondida.
            Vocês devem estar se perguntando: para que uma carta? Se ele pretende exonerar esse cargo, qual é o objetivo de dizer essas coisas para nós? E eu digo-lhes que esta é uma das melhores cartas da minha vida, pois é a escrita de tudo o que estava armazenado dentro de mim por muitos anos seguidos e que aqui não cabem mais,  então decidiram explodir. Boooom! É a expulsão do que estava preso na garganta e agora o alívio é imediato. Sinto a leveza necessária para seguir em frente. Fecho os meus olhos e consigo vislumbrar outros caminhos. Agora consigo respirar sem aquela ansiedade insana que destruía a minha saúde, mental e fisicamente.
            De quem é a culpa? Minha ou de vocês? Digo-lhes que não há culpados, mas sim vítimas de um sistema mal organizado. Porém, isso não pode virar desculpa esfarrapada para ignorarem a própria aprendizagem, queridos alunos!
            Eu adoraria dizer-lhes que quero prosseguir nessa caminhada docente, mas as forças minaram e eu quero outros itinerários para mim: de realização, de orgulho, de satisfação, de desejo e de luta pela profissão... Infelizmente o que citei não existe mais na minha vida profissional atual, somente na minha vida pessoal, que consegui preservar, ainda bem, não é mesmo? E não venham fazer julgamentos baratos e vazios para cima de mim, não! Não, isso não vou aceitar! Não quero ser julgado por quem quer que seja, pois ninguém sabe dos meus reais anseios, meus motivos e da intensidade do que sentia quando inaugurei nessa profissão. Ninguém sabe o quanto lutei para conseguir vencer e continuar nessa jornada, gastando todas as energias que existiam em mim e que agora precisam ser repostas com urgência. Ninguém sabe o quão intenso é esse desabafo. Talvez alguns colegas de profissão entendam o meu grito e a minha desistência. Digo alguns porque muitos vão dizer que não se larga um cargo público efetivo e que, para sobreviver nessa loucura diária, devemos empurrar com a barriga. Mas cansei de empurrar, quero avançar, quero crescer, quero continuar aprendendo e não “emburrecendo” cada vez mais quando percebo que pesquisar é em vão, pois as minhas palavras não serão ouvidas.  Meus discursos, antes bem elaborados, foram ficando cada vez mais simples, pois eram apenas monólogos que faziam apenas ecos e não sentidos nos ouvidos de quem fingia ouvir... Ecos que vibravam nos interlocutores mas voltavam vazios  para mim... Interlocutores que tampavam seus ouvidos com fones, pois era mais importante ouvir a música do momento! Descaso com a própria aprendizagem...
            Vocês só poderão me julgar se foram capazes de repor todas as minhas energias e mostrarem para todos os professores que tudo poderia ser diferente! Se vocês fizessem a diferença eu poderia mudar de ideia. Seria incrivelmente revolucionário se vocês lutassem por aulas melhores ao invés de fingirem que tudo está bem e ridiculamente se esconderem em seus fones de ouvidos e em suas tecnologias vazias (mal sabem escrever e os pais os premiam com celulares de última geração, parabéns para vocês, meus queridos!) Se vocês ao menos instigassem os professores... Se vocês realmente quisessem aprender, lutaríamos por vocês, mesmo diante de todas as dificuldades que sabemos existir em todos os sentidos. Seria desafiador, prazeroso e gratificante. Se isso de fato acontecesse eu rasgaria esta carta e recuperaria instantaneamente os meus combustíveis. As melhores aulas por mim seriam preparadas. Vocês teriam orgulho de serem meus alunos e bateriam no peito: “Aprendi muito com ele!”
            Mas por que somente eu preciso fazer a minha parte? Por que somente eu preciso  motivá-los e vocês aí passivos e dando de ombros quando tudo o que eu mais quero é um retorno singelo da parte de vocês, um sinal de interesse, uma resposta que nasça do brilho dos olhos de vocês quando eu pedir um cálculo, uma chama que abrilhante o coração de vocês quando eu solicitar uma pesquisa, uma busca, a vontade de aprender, a necessidade de sair do lugar comum e crescer como pessoa e como cidadão, entender que ninguém pode aprender por vocês e nem vocês por mim. Simples assim! Reflitam sobre essas palavras e com certeza poderão entender o outro lado: os bastidores dos professores que um dia desejaram suas profissões e que agora gritam enrouquecidamente e clamam enlouquecidamente por condições melhores. De tanto gritar, a voz cessa... Cansamos de implorar para dar aula.
            Novamente repito: não quero ser julgado. Façam a parte de vocês, mostrando a todos que são capazes. Não venham dizendo que os professores não motivam vocês, que a família não motiva vocês, que vocês não gostam de lousa e giz, que detestam aulas expositivas e blá, blá, blá, pois a força para aprender deve vir de dentro de vocês. Busquem essa força, ela existe e sempre existirá.  Inspirem-se em pessoas que aprendem porque pesquisam, perguntam, lutam pelo conhecimento simplesmente porque desejam aprender e não porque são dependentes da motivação de outros.
            Vocês fazem o momento e a diferença. Instiguem os professores, façam perguntas inteligentes que despertem a pesquisa, a ânsia pelo ensinar e pelo aprender, assim vocês terão aulas cada vez melhores. Lembrem-se que professores não são máquinas de motivação e malabarismos de aulas diferentes. Façam a parte de vocês!
            Pensem nas incríveis aulas que vocês perderam porque simplesmente não demonstraram interesse e foram minando as forças dos professores. Pensem nas aulas sensacionais que vocês terão daqui para frente se conseguirem refletir sobre cada palavra dita aqui.
            Não, eu não sou obrigado a fazer “malabarismos” para agradar vocês.  Não tenho tempo hábil, tenho vida pessoal e meu salário mal dá para as necessidades básicas, portanto não me peçam para preparar aulas “incrivelmente diferentes” alegando que só assim terão interesse! Haja tempo, dinheiro e fôlego para nós, hein? Isso não seria possível e vocês bem sabem por quê. Ensinar e aprender não pode ser tão complicado assim, entenderam?
            Minhas linhas estão chegando ao fim e eu confesso que fez um bem danado desabafar assim, jogar para fora tudo o que me tolhia, devolvendo para mim mesmo a dignidade e o meu amor próprio. Termino esta carta dizendo que um dia adoraria assistir de camarote todos os alunos mudando suas posturas frente ao Ensino, parando de culpar os professores e cumprindo seus deveres como verdadeiros cidadãos conscientes, reflexivos, autônomos, com a sede do aprender cravada no peito e um enorme respeito pelos professores, sentindo prazer em aprender a aprender, pois aprender não vem pronto, precisa ser tecido dia a dia por vocês. Construam isso com orgulho e sabedoria. Se isso um dia acontecer na Educação do país, eu certamente reacenderei a chama, mudarei de ideia e sairei pelas ruas fantasiado de professor, sem  sentir que estou com uma bola vermelha no nariz e falarei com orgulho: “ Não, não sou mais palhaço, agora eu sou um professor!”

                                                                             
                                                                              Abraços fraternais,

                                                                              Ex professor Raimundo


Até o próximo post!


2 comentários:

  1. Muito bom o texto!!! Estudo em escola pública, estadual e durante a noite (ou seja, pacote completo pro desastre). Mas ainda assim a direção da minha escola puxa as orelhas de todo mundo, então os professores em grande maioria conseguem dar aula numa boa. Admiro muito a profissão e sei que ela realmente tem um valor inestimável! É triste que na realidade os alunos não os respeitem, se escondam atrás dos fones de ouvido e outras coisas mais :( Mas vamos fazendo!

    www.garotasdemustache.blogspot.com.br

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    1. Olá, Midria! Fico muito feliz que tenha gostado do texto! Que bom que a sua escola tem uma direção que exige um bom comportamento dos alunos e vocês conseguem aprender sem perturbar os professores e sem atrapalhar aqueles que querem aprender. Isso é ótimo! Hoje em dia é triste ver a preguiça dos alunos e o descaso com a própria aprendizagem. Super beijo para você e sucesso!

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