[Ficção] Um dia chuvoso na cabana

Olá, anjos, tudo bem? O post de hoje é um texto ficcional de minha autoria, um suspense que adorei escrever. Espero que vocês gostem também! 


Ela está toda encharcada. Cadê seus documentos? Boa pergunta, mas acho que ela os perdeu. Vasculha inutilmente na mochila toda desgrenhada. Perambula pelo bosque em busca de um abrigo há dois dias. Meu Deus, ela está perdida!

Enfim, avista uma velha cabana e respira fundo. "Pelo menos eu terei onde dormir hoje. Já perdi as esperanças de encontrar o pessoal da escola. Já era! Minha mãe deve estar se descabelando e meu pai já deve ter infartado. E eu? O que devo fazer? Infartar ou arrancar os cabelos? Jesus, eu sou uma adolescente de 17 anos! Não sei nem lavar um copo, quem dirá me virar sozinha para o que quer que seja. Ok, Deus, isso deve ser um teste para eu amadurecer, né?"

Ela, nesse exato momento, está arrependida de ter participado da pesquisa de campo que sua professora de Biologia organizou. "Putz, a culpa é toda minha, eu não deveria ter saído de perto da turma. Só quis fazer o número dois  longe dos colegas de sala e olha no que deu! Maldita diarreia! Acho mesmo que foi o meu nervosismo, sei lá... Agora eu estou aqui nesse fim de mundo, encharcada por um temporal que parece a amostra de um diluvio interminável, estou sem documentos e sem comida. Parabéns para mim, sua anta, se eu estiver viva amanhã será um milagre."

A tal cabana é velha, caindo aos pedaços, mas quem se importa com aparência agora? A mocinha dessa história é mimada, rica e cheia de luxos. Mas não é hora de caprichos. Há duas opções: cabana ou mato. É claro que a cabana quebra um galho. Ela sabe que seus pais são capazes de vasculhar o mundo para encontrá-la... "Com certeza chegará um helicóptero para o meu resgate, mas quando?" Antes disso é preciso descansar e se proteger da chuva que está ficando cada vez mais forte. Demoraria dias? Semanas? Meses?

A adolescente abre a porta da cabana e leva um susto com o que vê lá dentro. Coloca a mão no coração, fecha os olhos e no mesmo instante, as palavras que compõem o Pai Nosso escorregam de seus lábios trêmulos. Há muito tempo não orava. Devia ser criança quando orou pela última vez, praticamente obrigada pelos pais, católicos fervorosos.  Nessas horas a fé aparece sabe-se lá de onde.  Seu coração está tão acelerado que dá para escutar as batidas de longe. Belisca a própria pele para se certificar de que não se trata de um pesadelo. Não, minha cara, a sua realidade é essa agora, abra os seus olhos para encarar o que vem pela frente. Então ela abre os olhos e enfrenta a sua, somente sua realidade: um grupo vestido de preto, sendo  quatro homens e três mulheres, a observam da cabeça aos pés. Parece filme de terror! Uma visão  sinistra... Mãos geladas  a empurram para dentro...

- Olá, Grazielli! Como tem passado? Eu sou a Morte e essa é a minha equipe. Diga um oi bem convidativo para todos, sem mostrar que está com medo, mocinha, pois de longe consigo sentir o cheiro do seu pavor - diz a Morte dando uma sinistra gargalhada, enquanto exibe um anel de caveira gigante em seu dedo indicador e uma aparência andrógina.

Um dos homens, com maquiagem branca, cinza e vermelha, sobretudo preto, coturno nos pés e  muitas  tatuagens nos braços, impede que Grazi fuja da cabana e fica de tocaia. Eles sabem que Grazi pode fugir a qualquer momento, então a cabana é  trancada assim que ela entra, algo que faz o corpo da garota tremer... E agora?  O barulho da chave a faz suar...

- Oo-o-oi. E-eee-uuu vou morrer, vou?
- Ora ora, dona Grazi, por que o espanto? Nunca te contaram que as pessoas morrem? Hummm, você está desinformada, minha cara!
- Digam o que querem de mim!
- Contamos a ela, pessoal?  O que acham? Hummm, a minha equipe acha melhor manter o suspense. Há um passo a passo a ser seguido  e respeitado. Você curte rituais, dona moça? Para que apressar as coisas? Vamos fazer tudo conforme o combinado, sem apressar os fatos. Você nunca ouviu falar em cronogramas? Acho que você perdeu a memória - diz a Morte, soltando uma gargalhada mais sarcástica do que a primeira.
- Meu Deus, será que eu estou ficando louca? Vocês são horripilantes! Deve ser uma armação do pessoal do colégio! Ai se eu pego esses malucos, sou capaz de matar um por um...
- Você não está louca e  não está participando de nenhuma armação! Ah, e também não é festa de Halloween. E sabemos que você não mataria ninguém, sua mimada egoísta! Na verdade, você só pensa em você, sempre foi assim e assim sempre será, a menos que alguém te chacoalhe para a vida! E esse alguém somos nós.
- Sou mimada e daí? Vocês não tem nada a ver com a minha vida. E, por acaso,  vocês entendem de Vida? Não vieram aqui representar a Morte? Muito contraditório tudo isso!

A única saída é chorar compulsivamente, abaixar a cabeça para não olhar nos olhos daquele grupo de terror e parar de enfrentá-los. Adiar a própria morte: eis o caminho! Sei lá, tentar despistá-los, usar suas artimanhas, inventar qualquer coisa para não morrer. Ela fica sem reação!

- Ei, você vai morrer de qualquer jeito. Todos morrem! Por que o medo? - revela a Morte sem piedade alguma.
- Eu estou grávida! Meus pais não sabem. Não sei se quero ter esse bebê. Já que vocês são tão maldosos, por que não matam o bebê ao invés de me matarem, hein?
- Sabemos de sua gravidez. Estamos aqui para mostrar alguns fatos para você, garotinha esquisita! Apesar de nossas vestimentas, não somos tão ruins assim, aliás, não somos nem bons nem maus... A nossa função é fazer a ponte: da vida para a morte. A morte é escura, negra como a noite... Você fecha os olhos e nada mais será visto... digo, carnalmente falando, entende? Depois tem outros mundos... Cada um é levado para o mundo que merece. Não somos demoníacos, apenas nos vestimos como góticos porque gostamos, somos estilosos. Acha mesmo que deveríamos ser bregas? Poupe-nos, Grazi julgadora!
- Então vocês não são do inferno?
- Não, não mesmo! Inferno com capeta não existe. É apenas uma alegoria, mocinha. As pessoas ruins da Terra é que fazem  o próprio inferninho aqui. E acredite, a Terra é o pior inferno que pode existir! Os outros mundos não são tão diferentes da Terra, exceto o famoso paraíso, que é realmente uma visão dos deuses... Ah, mas só vai para lá quem realmente tem o coração puro, o que não é  o seu caso.

Grazi não está entendendo mais nada! Então essa situação não é para temer? Deve então se acostumar com as vestimentas e o mistério deles?!  Ela, tão mimadinha, só sabia usar pink e cores claras, paetês, glitter, gloss e coisinhas fofas  realmente havia se assustado com aqueles góticos. Se isso acontecesse em um cemitério, ela teria perdido o bebê só de susto!

- Você é muito egoísta, Grazi! Desde o momento que descobriu a gravidez, até agora não sentiu nenhuma ponta de alegria, só pensou em você. Na verdade, você só pensa em abortar. O pai do bebê nem sabe que você está gravida, então você não sabe se ele quer essa criança. E se ele quiser? Já pensou nisso? Nãoooo, você só pensa em  você!
-  Ok, mostre-me tudo o que precisam mostrar para eu sair desse lugar! Comecem com o tal ritual! Não estou com muita paciência, mas qual escolha eu tenho aqui nessa cabana do inferno, hein?
- Não é a cabana do inferno. Essa cabana representa o seu eu. E chove lá fora, percebeu? Sua alma chora e você  nunca notou. Grazi, você só vê o que o espelho mostra!
- Aff, não preciso de vocês aqui para apontar os meus defeitos. Se choro ou não, e daí?
- Muito bem, graciosa! Sente-se e feche os olhos. Diga o que consegue ver.
- O quê?! Não vou fazer isso!
- Faça! Se não fizer por livre e espontânea vontade, a Lily vai hipnotizar você - diz a Morte, apontando para uma moça de pele extremamente pálida, lábios negros como a noite, olheiras profundas, cabelos longos até a cintura, lisos e negros. Parece a própria Mortícia, uma bela sinistra  fazendo um sinal com a cabeça para que  Grazi obedeça a Morte imediatamente.

Grazi fecha os olhos e tudo o que consegue ver é o Medo encarnado, como se ele entrasse nela agora. - Vejo o Medo. Ele tem rosto.  Parece um monstro!
- Ok! Concentre-se nele! O que mais vê ou sente? Não abra os olhos ainda...
- Sinto  e vejo outro sentimento: a Tristeza! Ela é uma mulher de cabelos cor de cinza e pele murcha, uma idosa sem vigor algum, sentada numa cadeira de balanço que range como filme de terror! Estou com muito medo dessas imagens. Vamos parar com essa brincadeira!
- Não é uma brincadeira, Grazi! Essa cabana é a sua alma. Você precisa entendê-la para seguir em frente. Não vamos matá-la porque não é a sua hora. Você ter se perdido no bosque representa a sua inércia. O que seus pais te ensinaram sobre a vida? Você é extremamente mimada e dependente. Precisou estar sozinha para descobrir sobre si mesma, algo que nunca quis saber. Você não se conhece!
- Com o dinheiro que eu tenho, por que ficaria preocupada em saber quem eu sou?  Fico ocupada com o luxo que o dinheiro me proporciona. Tenho de tudo, Morte, tudo mesmo: um quarto dos sonhos, viagens, um closet enorme, uma vida de princesa, um namorado gato e o que eu quiser pedir eu terei.
- Quero que diga o que mais vê ou sente?
- Sinto e vejo a  Culpa! Ela é uma mulher coitada, amarrada e amordaçada em seus atos passados. Uma grande corda está enrolada nela e ela não consegue respirar, nem agir. 
- Certo! O que mais?
- Vejo a Indiferença! Ela é uma mulher lindíssima, porém gelada como a neve, intocável, vive imersa em si mesma. Também vejo a Vergonha, uma garotinha de duas tranças que é vermelha como um pimentão, ela não olha nos olhos das pessoas  e suas mãos estão para trás.
- Abra os olhos e veja os seus convidados, Grazi! Eles vieram conversar com você e trouxeram um slide show de sua vida. Suporta reviver essas coisas no telão? Vamos preparar o jantar para que você possa conversar com essa gente.  Essa é a sua chance, menina! Relembre o passado, entenda os seus sentimentos do presente e construa o seu futuro com sabedoria.
- Meu Deus! O que é isso? - ela fica espantada com os seus sentimentos encarnados, encarando-a friamente, prontos a mostrarem coisas ruins dela. Que vergonha!

Enquanto os convidados encarnados  mostram o slide show da vida de Grazi e conversam com ela sobre tudo o que está sendo transmitido no telão, a Morte e sua equipe preparam o jantar, algo muito especial para que todos possam papear e ter uma noite agradável.

- Ei, Morte! Por que você e sua trupe me deixaram sozinha aqui com esse pessoal esquisito? Não estou nem um pouco à vontade! - grita Grazi da sala para a Morte ouví-la da cozinha, mas esta fingiu não ouvir e continuou preparando o jantar. Um cheiro de comida sensacional!

- O que querem de mim depois de me mostrarem todas essas coisas que eu mesma vivi? Nunca pensei que veria um trailer da minha vida numa cabana imunda e cheia de gente esquisita me encarando, me julgando...
- Não queremos nada de você - diz o Medo, um monstro marrom que parece ter sido pintado  de barro - Você tem as cartas na manga e poderá decidir se continuamos ou não na sua vida.
- Ei, eu não pedi para vocês viverem dentro de mim! Quem quer sentimentos ruins?
- Sabemos disso, mas certas ações nos chamam. É um magnetismo sedutor, sabia? Você precisa mudar para que possamos ir embora ou viver em você com menos intensidade. Tipo, de vez em quando daremos as caras, entendeu? - diz a Tristeza
- Não, não entendo nada disso! Só quero ir para minha casa! - choraminga Grazi, num desespero de dar pena.
- Se abortar o seu filho, vai viver comigo pelo resto de sua vida! - diz a Culpa, toda encolhida.
- Isso mesmo, Grazi! Eu sei que agora você é totalmente indiferente ao seu filho por conta da imaturidade, mas haverá o arrependimento, com certeza haverá - diz a Indiferença
- Vocês estão me assustando, isso sim!
- Você deveria ter vergonha de dizer que não quer o filho que está aí no seu ventre enquanto existem mulheres inférteis  por aí - sussurra a Vergonha.

- O jantar está pronto! Venham se servir - grita a Morte lá da cozinha

Cada um escolhe o seu lugar na mesa e Grazi, pela primeira vez, sente que a Morte não é mais sinistra apesar do estilo dark. Todos estão famintos e desesperados para saborear a refeição ao mesmo tempo que apontam as falhas de Grazi em plena noite chuvosa. O olhar de Grazi está distante... ela olha para a janela e os respingos de chuva parecem desenhar o seu nome junto a um rosto de bebê no vidro embaçado e sujo, assim não precisa olhar nos olhos daquela gente. "Santo Deus, eu  não quero esse filho e todos apontam o dedo na minha cara! Até a chuva quer falar comigo por meio dos respingos!"

A mesa está  farta com carne assada, saladas, legumes cozidos e temperados com ervas. Para beber, há duas garrafas de vinho seco muito antigos. Grazi come desesperadamente, evitando o olhar de todos, apenas encolhida  e pensativa. Uma tontura a impede de ser agressiva com eles... Se estivesse com o vigor de dias atrás, com certeza gritaria com eles, jogaria comida na cara de cada um e rangeria os dentes para mostrar a sua fúria. Mas não! Grazi precisa descansar, alimentar-se de modo decente e refletir sobre a própria  vida. Estava esperando um bebê, afinal!

- Grazi, você precisa saber de uma coisa! - revela a Morte - Por mais que você tente abortar, jamais conseguirá!
- Isso é o que nós vamos ver! - diz Grazi sem muita energia
- Eu sou a Morte e quem decide a hora de morrer sou eu, esqueceu? Se tentar abortar, seu filho vai vegetar, mas morrer somente quando eu decidir. Ele tem uma missão! Você quer um filho vegetando em cima de uma cama?
Todos encaram Grazi e notam uma palidez e um mal estar naquele instante!
- Vocês não podem me obrigar a ser mãe. Eu não quero! Eu tenho apenas 17 anos! 
- A nossa missão acabou aqui, Grazi. Daqui a pouco um helicóptero virá buscá-la. Seus pais estão loucos atrás de você e seriam capazes de mover o mundo para te encontrar. Você só precisa contar a eles sobre a gravidez e amadurecer, clarear a sua alma... Ah, pobre alma!  Ela é uma cabana escura e fechada.... Abra-se para o mundo e seja feliz, Grazi! Espero que tenha aprendido grandes lições sobre si mesma aqui conosco. Adeus! Nos veremos daqui a 77 anos, no dia 5 de abril pois  morrerá de câncer em cima de uma cama de hospital. Terá uma vida longa e  será feliz a cada limpeza que fizer nessa sua alma-cabana empoeirada, escura e suja... Vá em paz, graciosa menina!


Minutos depois, todos ouviram o barulho do helicóptero. A chuva cessou.  Grazi sentiu um grande  alívio e foi embora sem se despedir, sem olhar para trás. No fundo sabia que todos eles tinham razão, mas como admitir isso? O orgulho sempre a acompanhou. Só que agora é  preciso amadurecer e fazer a tal limpeza na alma-cabana!  Ironia ou não do destino, a tal Morte ensinou-lhe sobre a Vida... e agora é hora de viver de verdade...

(Autoria: Ana Paula dos Santos Borges)


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Este post é uma blogagem coletiva do + QP (Mais que palavras), um grupo para nos desafiarmos quanto à escrita, estimulando a nossa criatividade. Cada blogueiro deve criar um texto seguindo o tema do mês de setembro: "Um dia chuvoso na cabana". O tema do mês passado foi  "Uma carta para você mesmo(a)" Veja aqui o post. Confira outras postagens do tema em outros blogs:

4 comentários:

  1. Oi Ana! Achei muito interessante essa idéia da cabana com os sentimentos e essa troca entre eles mostrando as coisas sobre a vida pra ela. Gosto muito de personagens irreais dessa forma como você colocou. Boa sacada!
    Curioso com o que possa ter acontecido depois dessas lições. Tomara que ela tenha de fato aprendido!
    Quanto somos novos assim, temos mania de achar que sabemos tudo sobre o mundo. Só mesmo o tempo e as experiências pra nos mostrar o quão tolos éramos.
    Bons elementos!

    Beijos

    http://baudecanto.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Olá, Johnny! Muitíssimo feliz em saber que gostou do conto. Algumas pessoas precisam de um bom chacoalhao do destino para valorizarem a vida ou perceberem algumas coisas. Acredito que depois dessa experiência diferente, Grazi tenha percebido o quanto sua vida e a vida do bebê são preciosas. Eu adoro esse tipo de história irreal! A principal lição eh a valorização da vida. A morte eh inevitável, então façamos valer a pena a vida que pulsa. Beijos

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  2. Esse conto é maravilhoso 😍 parabéns 👏❤

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    1. Obrigada! Fico feliz que tenha gostado! Beijosssss =^.^=

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