[Ficção] Mariah e os monstros de papel

O texto a seguir é de minha autoria, seguindo o tema sugerido pelo grupo Mais que palavras (detalhes no final do post).  Espero que gostem!


Ela era pobre, muito pobre e... triste, muito triste. Vivia em um orfanato e convivera com seus pais biológicos quando era muito pequenina. Agora tinha sete anos de idade muito bem vividos. Amadurecera tanto nesses anos!  As lembranças de seu lar  eram linhas finas de um passado amedrontador que às vezes transbordavam na superfície de seus sonhos, à noite, em forma de pesadelo. Mas na maioria das vezes essas lembranças apareciam em rompantes nos desenhos da menina. 

Beta, a funcionária do orfanato, era como se fosse uma mãe para Mariah.  Meiga, atenciosa e linda em seus  cabelos longos e encaracolados. "Mãos, cabelos e olhares de mãe", pensava a garotinha assim que fechava os olhos para dormir e recebia os carinhos da moça. Mariah e Beta eram inseparáveis. A doce funcionária sabia do passado de Mariah. Ah, sabia como ninguém! Mas havia jurado nunca contar a ela, apesar de desconfiar que Mariah tinha lembranças muito fortes no inconsciente, lançadas no papel em forma de monstros. Meu Deus, o que aconteceria com ela se descobrisse toda a verdade? Mariah ficaria uma fera com ela se descobrisse que a mãe biológica estivera no orfanato ontem, ontem mesmo. Céus! A mãe transbordava em lágrimas, pobre mulher, perturbada em seus devaneios e totalmente desequilibrada, dependente de drogas,  incapaz de cuidar dos filhos!  A mãe só queria saber como estavam os filhos. E o pai? Melhor nem pensar nesse sujeito. 

Mariah, tão pequenina de olhos negros como jabuticaba, cabelos negros e pele negra, rosto de boneca, porém assustada só de pensar em ser adotada por quem quer que seja. Beta fizera as trancinhas em estilo rastafari mais lindas do mundo para ela! Presente de aniversário. 

Mariah sempre dizia em tom triste:

- Eu nunca serei adotada, Beta! Nunca! Meus irmãos também não!
- Por quê, meu anjo? Não quer uma família para cuidar de você?
- Eu quero meus pais diferentes! Quero eles, só eles!
- Mudados, Mariah? Eles são o que são. Você quer seus pais de volta, meu amor? Você nem se lembra deles para dizer isso!
- Eles são monstros, Beta. Quem abandona os filhos? Quem? 
- Se são monstros como você diz, acha possível que eles mudem assim da noite para  o dia?
- Se Deus existe, vai mudar meus pais, Beta! Ele vai fazer meus pais serem bonzinhos para mim e para meus irmãos. Todo dia eu peço isso para o papai do céu, mas parece que ele não me escuta, Beta! Será que papai do céu também não gosta de mim?
- Nunca diga isso, Mariah! Deus ama você!

Beta sempre chorava ao ter esse tipo de conversa com Mariah. Era inevitável, repetitivo e angustiante. A menina sempre começava dizendo que queria mudar os pais, depois que Deus não a amava, gritava que seus pais eram monstros por terem abandonado os filhos. Meu Deus!  Quantas vezes deixou de dormir para ficar acariciando as trancinhas de Mariah e ouvindo seus lamentos? O que fazer para ajudá-la? Beta sabia que os sonhos de Mariah não seriam realizados, não dessa forma. Os pais da garotinha jamais mudariam. Beta sabia disso mais do que ninguém, mas simplesmente não podia contar toda a verdade, prometera isso para a mãe de Mariah.

Mariah tinha mais três irmãos dos mesmos pais: uma menininha mais nova que ela de 3 aninhos, um irmão gêmeo e uma irmã de 10 anos que era como se fosse uma miniatura de mãe para ela, sempre protegendo-a até nos pensamentos. Eram todos muito amigos e sempre conversavam sobre adoção. Não queriam isso de jeito nenhum. E se eles fossem cada um para uma casa? Quem ia querer adotar todos juntos? A palavra adoção causava arrepios nas crianças. 

Mariah colecionava desenhos embaixo da cama. Eram monstros dos mais variados estilos. Monstros que a atormentavam desde o nascimento. Talvez até na barriga da mãe se lembrasse desses monstros... Desenhava como se estivesse em transe, em seguida chorava compulsivamente. Depois de prontos, os desenhos eram guardados em uma caixa de sapato embaixo da cama e ninguém poderia mexer neles, nem os irmãos. Um dia, Beta a observou através da fresta da porta e não pôde conter as lagrimas ao observar o desespero da garotinha. Beta não poderia deixar isso passar. Quem era ela, afinal,  para deixar uma pobre garotinha sofrendo tanto daquele jeito? Resolveu conversar com o novo  psicólogo do orfanato para que ele pudesse conversar com ela, acalmá-la, enfim, fazer alguma coisa, mas a resposta dele foi a seguinte:

- Beta, eu cheguei aqui semana passada e tenho casos mais graves para atender que estão na fila. Não posso passar Mariah na frente porque você está me pedindo!

- Por favor, ela sofre muito, em desespero constante. Você precisa ver os monstros que ela desenha! Eu peguei um para te mostrar. Veja isso!

- Minha nossa! Que coisa horrível! 

- Eu sei do passado dela, Carlos! E eu só contaria para você, que é psicólogo e guardaria segredo. Esses desenhos dizem muito sobre o que ela está sentindo. A alma dela sangra todos os dias. Depois, se você puder, converse com os irmãos dela também. Eles sofrem muito também, mas cada um tem uma maneira diferente de lidar com as sombras do passado. A mais velha não se lembra de nada do passado, teve um bloqueio! O gêmeo é reservado e triste, não tem amigos aqui no orfanato. A caçula de 3 anos é a única que não sofre. 

- Vou atendê-la o mais rápido possível, Beta! 


Carlos, o psicólogo, não conseguia parar de pensar sobre os desenhos de Mariah. Monstros que assustariam até um adulto, imagine uma criança de sete anos! A insistência em querer mudar os pais fez com que Carlos intervisse, trabalhando o psicológico de Mariah para uma possível adoção, mas sem contar o seu passado. Carlos sabia que jamais seria possível que Mariah e seus irmãos voltassem para  a mesma família.  Ela era muito novinha para saber detalhes tão monstruosos de seu passado. Um dia saberia, talvez. Mas era necessário trabalhar o psicológico da menina para novos sonhos, novos pensamentos e novas visões de mundo e de vida. Quem sabe uma nova família?  Não foi fácil!!! Ufa!  Carlos, enquanto psicólogo, pensou em várias estratégias que pudessem avaliar a alma da garotinha. Foi a terapia mais árdua de toda a sua carreira. Mas também a mais gratificante!

Foram meses e meses de investigação para traçar um diagnóstico, uma intervenção plausível às condições da garotinha e uma melhora ...  Muita terapia,  conversa e muita paciência.  Descobriu-se que Mariah fora molestada diversas vezes pelo próprio pai... o sangue da perda de sua virgindade ficara no lençol, estampado na cama enquanto a mãe observara tudo em silêncio, amordaçada e amarrada pelo próprio esposo, um verdadeiro monstro. A mãe não poderia intervir, aliás nunca pudera.  Não era sua culpa, não sabia o que fazer, pois era ameaçada dia e noite. Se ela ousasse denunciá-lo, ele mataria as crianças, era o que ouvia todo santo dia da boca imunda de seu companheiro, ora bêbado, ora lúcido.  Isso era uma tortura para uma mãe que era obrigada a presenciar aquilo sem poder ajudar os filhos e ainda ser ameaçada de perder todos eles. Todos esses detalhes eram traçados nos desenhos de Mariah, sem que ela conseguisse distinguir a fantasia da realidade. Tudo ficara em seu inconsciente. No consciente ficaram lapsos de memória, suficientes para atormentá-la todos os dias e todas as noites. Mariah entendia esses lapsos como pesadelos que a atormentavam a noite, como pensamentos que apareciam do nada sem que ela pudesse entender,  e não como uma realidade que viveu no passado. Os irmãos também haviam sido molestados, menos a menininha de 3 anos, que na época nem havia nascido. A mãe era constantemente torturada, espancada, humilhada  e xingada. Hoje sofre de crises de pânico, é dependente de drogas e tem vários problemas psicológicos, decorrentes de seu trauma. O pai está preso e é considerado um psicopata perigosíssimo para a sociedade. 

Os monstros foram rasgados, um por um, pela própria menina depois da terapia, sem precisar que o psicólogo pedisse isso. Antes, os monstros  eram válvulas de escape, de certa forma até necessários para que a menina extravasasse toda a sua dor;  agora não passam de desenhos que fazem mal para a sua alma. A terapia contribuiu para a destruição  dessas metáforas. Novos desenhos  estão sendo traçados e alimentados na alma de Mariah.  Ela está feliz em construir novas metáforas, novos traços: de vida, de desenhos, de sonhos... Um novo horizonte brilha à noite sem pesadelos e o sono da garotinha é leve feito pluma...  Paulatinamente, flores começaram a surgir nas folhas de sulfite. Muitas  rosas e  margaridas delicadas, paraísos com crianças correndo e brincando, bailarinas, rostos de anjo, famílias de mãos dadas, personagens de contos de fadas  e pássaros sobrevoando o infinito. Mariah agora está mais serena. Nunca mais quis desenhar monstros. Seu sonho agora é ser adotada, ela e seus irmãos. Aceitou a possibilidade de ser adotada sem os irmãos,  desde que nunca perca o contato com eles. Aprendeu a suportar a espera por um lar sem dor... Faz parte da vida! Quando será adotada? Ninguém sabe ainda... Enquanto isso, a menina faz novas amizades no orfanato, aprofunda os laços com os irmãos e fortalece a amizade com Beta, sua mãezinha postiça. 

 "A felicidade não é algo impossível", pensou sorrindo, enquanto Beta arrumava suas trancinhas e ela rasgava o ultimo monstro da caixa. 

(Autoria: Ana Paula dos Santos Borges)

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Este post é uma blogagem coletiva do + QP (Mais que palavras), um grupo para nos desafiarmos quanto à escrita, estimulando a nossa criatividade. Para o mês de junho, cada blogueiro deve criar um texto seguindo  o seguinte roteiro: 
"Uma menininha tem medo do monstro debaixo da cama dela, mas o que ela não sabe é que ele está ali pra protegê-la dos monstros reais: seus pais."

O tema do mês passado foi  "Tempo para si". Clique aqui para ler o meu texto.


10 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá, Anna! Bom demais saber que gostou do texto. Obrigada, flor! Bjss

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  2. Adorei seu texto!
    Também faço parte desse grupo e ainda estou pensando como vai ser meu post sobre o roteiro sugerido! Tu retratou bem o tema, soube ser criativa e desenvolver bem a história! Gostei do jeito que tu escreve, a gente lê sem cansar!

    bjs
    blogtrashrock.blogspot.com

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    Respostas
    1. Olá, Marília! Adorei saber que vc gostou do meu texto e do jeito que eu escrevo. Isso me motiva muito p/ continuar. Obrigada! Depois vou querer ler o seu texto para o projeto. Super beijo

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  3. Oi Ana, tudo bem? Você lembra que um tempinho atrás você preencheu um formulário para participar de um projeto fotográfico? Eu te mandei um e-mail ontem e espero a sua resposta :)
    Beijos

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    1. Olá, Lívia! Acabei de responder ao email. Desculpe-me a demora. Beijos

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  4. Ana aplausos para você!!!
    Você escreve super bem e é criativa. Adorei!
    http://entreflecha.blogspot.com.br/
    Beijos e sucesso!

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    1. Olá, Dayane! Elogios assim me incentivam muito a continuar escrevendo. Eh uma doce injeção de ânimo! Obrigada, querida! Fiquei muito feliz com o seu comentário! Bjsss

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  5. Estou sem palavras para este texto. Parabéns!

    ladodomeio.blogspot.com.br

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    1. Olá, Jake!!! Muito obrigada, flor!!! Gratificante demais ler um comentário assim como o seu, estou muito feliz!!! Beijos

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