[Ficção] A mulher escondida

Um texto de minha autoria sobre o tema “Mulher”. Espero que gostem!

Imagem: Fotofrontera

Manuela era daquelas garotas recatadas, tímidas e religiosas. Era absurdo o modo como ocultava a sua beleza. Sério! Quem a via ali, na igreja ou na faculdade, não podia sequer imaginar o poder que ela tinha de magnetizar quem quer que seja, mas ela nem desconfiava de tal poder. 

Os looks diários de Manu eram saias longas, camisetas largas, tênis ou sapatos fechados, cabelos presos, óculos e nada de maquiagem.  No fundo, desejaria sim usar um salto alto, uma make poderosa e uma roupa moderna, mas seus pais eram tradicionais demais para permitirem isso, rígidos ao extremo quanto aos dogmas da religião e radicais em todas as atitudes que tomavam, o que impedia que Manu tivesse voz, desejos próprios e liberdade.  Era um fantoche dos pais.

Joaquim, um homem de 25 anos, alto, loiro, olhos claros, um deus grego de tão charmoso e interessante, sempre observava aquela mulher escondida na garotinha. Observava o modo como gesticulava, seu olhar cabisbaixo e tímido, os cabelos presos que deveriam ser extremamente lindos se fossem soltos,  sua pele que deveria ser macia ao toque... Perdia várias horas por dia imaginando-a com outros looks (e sem eles) e ficava horas tentando decifrar o enigma de Manu: o  porquê daquele esconderijo de si mesma.  Seus pensamentos e sentimentos eram puro amor, ternura, desejo e compaixão. Sim, isso  mesmo! Ele também sentia pena dela. 

Manuela e Joaquim estudavam juntos na mesma turma. Cursavam Direito. Eram colegas de sala mas mal se falavam porque Manu  não olhava para os lados, não percebia o mundo à sua volta. Ela tinha apenas uma amiga que, por coincidência, era da mesma religião. Juntas, faziam todos os trabalhos acadêmicos e tiravam dez em todas as disciplinas. Joaquim ficava furioso por isso, pois era ele quem deveria estar ali, fazendo os trabalhos com ela... Sentariam juntos, tocaria suas mãos, poderia descobrir os segredos mais profundos daquela mulher, tocaria em seus cabelos, conheceria suas ideias, seus sentimentos e seus pensamentos sobre o mundo e sobre a vida. Ele queria conhecê-la como mulher em todos os sentidos... Não era apenas carnal o que sentia! “Faíscas de um desejo intenso certamente atrapalhariam o nosso raciocínio para realizar qualquer tarefa acadêmica, se Manu e eu estivéssemos juntos em alguma sala. Ah, melhor Anabela e ela estarem juntas nesse momento. Um dez é garantido para elas. Comigo ela tiraria dois ou mesmo zero, pois eu não tiraria os  olhos daqueles lábios e ela perderia os sentidos só de olhar para mim... faríamos amor em meio aos papeis e livros... esqueceríamos das leis, das provas e de qualquer outro assunto naqueles instantes de enlace entre almas e ao mesmo tempo de volúpia carnal...”, pensava Joaquim.

Aquela garota, que ainda não tinha percebido que era uma mulher, parecia viver em uma meninice eterna, uma ingenuidade que não combinava com a sua real idade. Cabelos negros encaracolados e muito, muito longos, olhos cor de mel, pele alva... Era a própria Branca de Neve cursando Direito. Ela respirava a bíblia e os dogmas de sua religião, dia após dia. Como atingi-la? Como fazê-la perceber a si mesma, sem que isso abale a sua fé em Deus? Joaquim não entendia por que Manu havia escolhido Direito, pois o curso parecia não combinar muito com a personalidade dela. Ou será que ela estaria tolhida? Aquela não deveria ser a sua real personalidade? Não, não era possível aquilo. Como uma mulher estaria escondida da própria felicidade? Da própria vida?

Tantas mulheres lindas e disponíveis na faculdade e Joaquim estava imerso na beleza oculta de Manu.  Era algo que não podia evitar. Fugir de um sentimento que ele mesmo não conseguia controlar?  Seria destino? Por que ele, tão popular, bonito e desinibido se apaixonaria perdidamente por alguém como Manu?  Seus colegas o ridicularizariam se descobrissem.

Manu era uma garota obediente aos pais. Em seus 23 anos, nunca havia experimentado um beijo na boca.  Havia prometido aos pais que se casaria virgem e que o seu futuro esposo seria da mesma igreja. Isso era uma obrigação em seu seio familiar, por isso Manu não olhava para os lados. E se  o seu coração começasse a disparar loucamente por alguém de outra religião? Um medo constante que assaltava os pensamentos de Manu... Anabela, sua melhor amiga, era muito diferente: uma garota de fé mas que fingia seguir os dogmas e fazia o que bem entendia longe dos pais, nem virgem ela era e isso não era importante em sua opinião... Anabela dizia que sua fé em Deus era inabalável, apesar das peripécias sexuais que colecionava às escondidas. Manu ouvia os relatos “cabeludos” da amiga e ria muito. No fundo até queria ser igual a Anabela. Mas, e a coragem? Isso lhe faltava!

Romântica, Manu sonhava com o seu primeiro beijo, depois vinham os pensamentos sobre a primeira noite de amor... Ah, seus hormônios gritavam... parecia insuportável esperar por um alguém que ela nem sabia se viria. “Por que o meu amor tem que ser da igreja?”, questionava para si mesma, entristecida. “Talvez ele esteja em outro lugar, já que ate agora não apareceu!” A idade parecia pesar para ela... E quando alguém conversava sobre beijos e namorados, Manu queria um buraco para se esconder, tamanha a sua vergonha em revelar a verdade.

Ao completar 24 anos, algo mudou em Manu. O espelho denunciava outra pessoa. As curvas do corpo e o rosto perfeito estavam ali bem na sua frente e ela nunca tinha notado, pois o seu esconderijo eram aquelas roupas largas e feias. Sem elas ali naquele espelho, Manu percebeu que era mulher e não mais uma garotinha ingênua, dependente, mimada e filha única controlada pelos pais. Tinha desejos. Tinha paixões (pela vida, pela arte, pela moda, pelo conhecimento, pelos livros). Tinha sensações. Tinha fé. Tinha voz (voz própria). Tinha descoberto o próprio corpo ali no espelho. Tinha descoberto a própria beleza e a própria vida que pulsava ali bem na sua frente. Quem era aquela? Era ela mesma, constatou com um sorriso largo e feliz.  Aqueles  primeiros meses das vinte e quatro primaveras revelavam as nuances de sua feminilidade... algo que nunca havia notado... meses mais que perfeitos. Meses de sua descoberta. Meses felizes. Manu era ela mesma. Uma vontade absurda de se arrumar a dominou. Como fazer isso sem magoar sua mãe e sem ofender o seu pai?

Ah, Manu, intensas são as descobertas sobre si mesma... florescimento interno e externo... Vida que vibra... Você é mulher e isso não é nenhum pecado. Você não precisa perder a sua fé, só precisa aflorar a própria personalidade e viver a sua própria vida. Algo tão óbvio, não é mesmo, Manu? Mas infelizmente para algumas garotas isso não é tão óbvio. É preciso descobrir-se. Vinte e quatro anos para descobrir quem você realmente é? Tempo demais, mas nunca é tarde, Manu! Então prossiga!

Manu estava feliz. Poderia enfim se libertar e ter voz... Resolveu procurar um emprego, ganhar o seu próprio dinheiro, mesmo contra a vontade dos pais.  Após meses de procura, conseguiu um emprego para ganhar um bom salário, afinal, ela era muito inteligente. Seus pais piraram absurdamente com a notícia. Sua mãe ficou ofendida. “Como pode, minha filha? Seu pai ganha muito bem, você não precisa trabalhar porque será esposa e mãe no futuro, esqueceu disso, minha filha? E os ensinamentos da igreja?”, choramingava a mãe.  “Filha minha não trabalha de jeito nenhum!”, vociferava o pai. E Manu ouvia aqueles lamentos maternos e aquelas broncas paternas e mesmo assim estava firme em sua decisão. Precisava ganhar o próprio dinheiro. Precisava de uma atitude, o primeiro passo, para ser uma mulher.  Deu o primeiro, depois o segundo, o terceiro... Os passos não cessaram mais... Agora Manu mora em seu próprio apartamento, alugado, simples, mas é o canto dela: a liberdade!

No começo as lágrimas pareciam ser a sua sina. “Meu Deus, o que eu estou fazendo com os meus pais? Que rebeldia! Que loucura!” Depois esses pensamentos desapareceram... Manu estava radiante e a sua beleza vinha da felicidade que ela irradiava. Soltou os cabelos, aprendeu a se maquiar, começou a se interessar por moda, descobriu que era criativa para montar looks e saltos altos eram suas peças preferidas agora. Resultado? Olhares masculinos não paravam de segui-la.  Na faculdade, depois de tanto tempo calada e sem dar uma opinião sequer durante as explicações dos professores, começou a participar ativamente em cada aula. Falava com desenvoltura. Não parecia a mesma pessoa. Quem era aquela? Todos estavam boquiabertos com a mudança de Manu. De garotinha recatada e isolada à mulher poderosa, inteligente e bela. Essa era a sua verdadeira personalidade, antes oprimida, agora livre para ser ela mesma. Mulher!

Joaquim percebeu essas mudanças ao poucos. Tudo isso não aconteceu de uma hora para outra, mas Joaquim estava atento a todas essas nuances porque ele a amava e prestava atenção nela, sempre. Cada progresso era uma injeção de felicidade e paixão para ele. Sim, agora ele tinha chances... Agora estavam no último ano do curso... Meu Deus, ele havia passado o curso inteiro vivendo um amor platônico por uma garota inacessível.  Outras mulheres passaram sim por sua vida nesse tempo todo, porém era Manu a dona do seu coração. E agora, ele poderia dizer adeus à vida boêmia e à busca incansável por outras mulheres que pudessem tirar Manu de sua cabeça. Era o amor verdadeiro que ele almejava, não mais aquelas peguetes vazias que não largavam do pé dele. Joaquim era romântico e poeta, essa era a sua essência desde sempre, apesar do lado descontraído e da fase baladeira. Um homem que sabia muito bem que essas características jamais tirariam a sua masculinidade. Ser poeta e romântico era para ele um grande orgulho.

Manuela passou a olhar em volta, explorar o mundo e a vida, algo que não acontecia antes. De repente, Manu olha para trás e diz:

-          - Joaquim, tenho algumas dúvidas em relação à prova de amanhã. Você pode me ajudar?

Coração acelerado, olhar paralisado no olhar dela, Joaquim respondeu:

-É claro que eu ajudo você, Manu! Com o maior prazer do mundo!

Então sentaram juntos e Joaquim, com a maior paciência do mundo, ensinou todos os tópicos daquela disciplina. Deu o sinal do intervalo e o tempo parecia ter congelado para os dois. A voz dele parecia música para os ouvidos dela... O silêncio de Manu parecia ser a melhor poesia que Joaquim havia lido em toda a sua existência. Um suave beijo surgiu entre eles, assim espontâneo... O melhor beijo de Joaquim. O primeiro de Manu.

E os pais de Manu? Eles a perdoaram...

(Autoria: Ana Paula dos Santos Borges)





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